Professores de redação e matemática dão dicas para quem está com conteúdos atrasados e precisa organizar a preparação para o exame
A contagem regressiva para o Enem 2026 já começou. Faltam 66 dias para o primeiro dia de provas, e muitos estudantes chegam a esta etapa do ano com a sensação de que não conseguiram estudar tudo o que gostariam.
Mas, segundo professores, o momento não é de desespero. Para quem está com a preparação atrasada, ainda é possível avançar até a prova, desde que os próximos dias sejam usados com estratégia e constância.
A recomendação é deixar de lado a tentativa de recuperar todo o conteúdo de uma vez e concentrar os esforços em assuntos que podem trazer mais retorno, além de investir em questões, simulados e revisão dos erros.
Redação: comece pela estrutura
Para a professora de redação Josy Kelly Santos, quem está chegando à reta final com lacunas na preparação deve, antes de tudo, manter a calma.
“Ainda há esperança”, afirma a professora. Segundo ela, o estudante deve organizar uma rotina de estudos que inclua horários definidos, produção de uma redação por semana e resolução de questões.
A orientação é evitar passar os próximos dois meses tentando estudar conteúdos isolados sem uma estratégia. Para Josy, isso pode aumentar a ansiedade do candidato e não necessariamente representar um ganho efetivo de desempenho.
Para quem está começando do zero na redação, a prioridade é dominar a estrutura exigida pelo Enem e compreender as competências avaliadas.
O candidato deve entender como funciona o texto dissertativo-argumentativo, quais elementos precisam aparecer na produção e de que maneira a banca avalia cada competência.
Uma estratégia indicada pela professora é analisar redações nota mil de edições anteriores. A partir delas, o estudante pode observar como os candidatos estruturaram a introdução, desenvolveram os argumentos e apresentaram a proposta de intervenção.
Não aposte em repertório coringa
Na reta final, pode surgir a tentação de decorar citações e referências para tentar encaixá-las em qualquer tema. A professora, no entanto, não recomenda essa estratégia.
“Repertório coringa jamais”, afirma Josy.
A orientação é estudar por eixos temáticos, como saúde, educação, meio ambiente, tecnologia e questões sociais e culturais.
O próprio conhecimento de mundo do estudante também pode ser utilizado. Filmes, livros, acontecimentos históricos e questões atuais podem se transformar em repertório, desde que tenham relação com o tema proposto na prova.
Para a professora, não é necessário memorizar dezenas de citações. O candidato que acompanha acontecimentos, teve contato com diferentes disciplinas na escola e possui referências culturais já tem elementos que podem ser aproveitados na redação.
Matemática: priorize o que pode render mais pontos
Na matemática, a estratégia também deve ser seletiva. Para o professor de matemática José Ferreira Lima Neto, quem tem pouco tempo precisa priorizar conteúdos que aparecem com frequência e podem ajudar o estudante a conquistar pontos nas questões mais acessíveis.
Entre os assuntos indicados estão regra de três, porcentagem, razão e proporção, gráficos e tabelas, estatística básica, conversão de unidades e geometria.
Também entram na lista quatro operações, frações, números decimais, Teorema de Pitágoras, escalas, volumes, equações do primeiro grau e função afim.
Dentro desse conjunto, o professor destaca cinco prioridades: regra de três, porcentagem, interpretação de gráficos e tabelas, estatística básica e geometria básica.
A lógica é simples: em vez de tentar aprender superficialmente todos os conteúdos de matemática em dois meses, o estudante pode dominar alguns assuntos recorrentes e praticá-los por meio de muitas questões.
Menos fórmulas, mais interpretação
Para quem tem dificuldade com fórmulas, o professor explica que alguns dos conteúdos mais importantes podem ser trabalhados a partir de raciocínio, interpretação e operações básicas.
É o caso de questões envolvendo razão e proporção, porcentagem, estatística, gráficos, escalas e geometria.
A recomendação é observar como esses conteúdos aparecem em situações do cotidiano, como consumo, velocidade, produção, descontos, aumentos, comparação de grandezas e interpretação de dados.
Assim, o estudante consegue desenvolver não apenas a capacidade de fazer cálculos, mas também de identificar qual estratégia deve ser utilizada em cada questão.
Simulados ajudam a controlar o tempo
Não basta saber o conteúdo. No Enem, o candidato também precisa conseguir resolver as questões dentro do tempo disponível. Por isso, os simulados devem fazer parte da preparação, especialmente para quem tem dificuldade em administrar o relógio durante a prova.
No primeiro dia do exame, são 5 horas e 30 minutos para responder às questões de linguagens e ciências humanas e fazer a redação.
A professora Josy recomenda que o estudante treine para fazer a redação em, no máximo, duas horas. Se o tempo ultrapassar esse limite durante os simulados, é um sinal de que o candidato precisa ajustar a estratégia para não comprometer a resolução das demais questões.
Além de reproduzir a dinâmica da prova, os simulados ajudam a identificar quais conteúdos ou etapas estão consumindo mais tempo.
Tem duas ou três horas por dia? Veja como dividir
Para quem consegue estudar entre duas e três horas por dia, José Ferreira sugere reservar aproximadamente uma hora diária para matemática.
A divisão pode ser feita da seguinte forma:
- 30 minutos: resolução de questões;
- 20 minutos: correção e análise dos erros;
- 10 minutos: revisão do conteúdo ou tentativa novamente das questões erradas.
Uma vez por semana, esse período pode ser utilizado para um bloco cronometrado de questões.
O professor recomenda evitar que todo o tempo seja gasto assistindo a aulas ou copiando teoria. Na reta final, a prática deve ocupar uma parte significativa da preparação.
A lógica é seguir um ciclo: resolver, corrigir, entender o erro e tentar novamente.
“Sou ruim em matemática”: como mudar essa visão?
A ansiedade também pode atrapalhar o desempenho. Para José Ferreira, uma das primeiras mudanças necessárias é abandonar a ideia de que o estudante é “ruim em matemática”.
Em vez disso, ele sugere uma visão mais realista: “ainda não domino alguns conteúdos, mas posso aprender o suficiente para avançar”.
Faltando pouco mais de dois meses, o objetivo não precisa ser dominar toda a matemática. O estudante deve identificar aquilo que consegue aprender e transformar esses conteúdos em pontos na prova.
“Não é preciso saber tudo; é preciso aprender o próximo passo e garantir os pontos que estão ao alcance”, afirma o professor.
Cuidado com os erros causados pela pressa
Um dos principais problemas enfrentados pelos candidatos no Enem pode não estar no conteúdo, mas na interpretação dos enunciados.
Segundo o professor, é comum o estudante fazer os cálculos corretamente e, ainda assim, marcar a alternativa errada por não ter compreendido exatamente o que a questão pedia.
Entre os erros frequentes estão:
- responder um resultado intermediário em vez daquilo que foi perguntado;
- esquecer de converter unidades;
- confundir área e perímetro;
- aplicar porcentagem sobre o valor errado;
- confundir grandezas diretamente e inversamente proporcionais;
- interpretar incorretamente gráficos, escalas e intervalos;
- não prestar atenção a palavras como “diferença”, “total”, “restante”, “maior”, “menor” e “aproximadamente”.
Uma dica é criar o hábito de fazer uma pausa antes dos cálculos. Primeiro, o estudante deve identificar o que a questão está pedindo, quais informações realmente serão utilizadas e qual unidade deve aparecer na resposta.
Depois de resolver, vale conferir novamente: a resposta encontrada realmente responde ao que foi perguntado?
O que fazer nos próximos dias?
Para quem ainda precisa colocar os estudos em dia, a principal mensagem dos professores é que o tempo restante pode ser aproveitado, mas exige foco.
Na redação, a prioridade deve ser dominar a estrutura, entender as competências, escrever semanalmente e construir repertório a partir de diferentes eixos temáticos.
Em matemática, o caminho é priorizar conteúdos recorrentes e questões fáceis e médias, sem tentar recuperar todo o programa da disciplina de uma só vez.
E, nas duas áreas, uma estratégia aparece como essencial: praticar.
Resolver questões, corrigir os erros e fazer simulados pode ajudar o candidato a entender melhor os conteúdos, ganhar ritmo e chegar ao dia da prova mais preparado para administrar o tempo.
A reta final, portanto, não precisa ser encarada como uma corrida para aprender tudo. O objetivo é usar os 66 dias restantes de maneira estratégica, identificando os conteúdos que podem ser dominados e transformando conhecimento em acertos no Enem.
