A nova videoaula do Lá Vem o Enem mostra como o avanço da tecnologia pode ser analisado na prova de Ciências Humanas a partir das escolhas humanas e do impacto do uso de algoritmos na sociedade. O professor de Filosofia Adriano Silveira recorre aos conceitos de Aristóteles, Immanuel Kant e Hans Jonas para ensinar como conectar a inteligência artificial à ética.
Segundo o professor, Aristóteles permite pensar a ética por meio da phronesis (a sabedoria para tomar decisões), em contraste com a tecne, associada ao “saber fazer” e à inteligência artificial.
“Quando Aristóteles pensa a sabedoria, pensa a ética como essa ação sábia de tomar decisões, nós olhamos para a inteligência artificial, o que é que a gente encontra? Algoritmos, nós encontramos números, nós encontramos estatística”, destaca Adriano.
A aula também aborda o imperativo categórico de Kant. O filósofo defende que o ser humano deve ser tratado sempre como um fim, e não como um meio. Para exemplificar a teoria no contexto atual, o professor levanta o debate sobre o uso de IA na seleção de alvos militares por drones ou na triagem automatizada de currículos que descarta candidatos sem avaliação humana.
Para fechar, Adriano Silveira aciona a “ética da responsabilidade” de Hans Jonas ao tratar dos impactos ambientais causados pelo resfriamento dos servidores de IA, questionando que tipo de mundo queremos deixar para as próximas gerações.
Entender essas conexões entre decisões humanas, algoritmos e consequências ecológicas ajuda o estudante a construir um bom repertório tanto para a prova de Filosofia quanto para a redação do exame.
Assista a videoaula abaixo:
Entendeu o conteúdo? Agora é hora de colocar os conhecimentos em prática e resolver questões sobre memória, História e representações do passado.
1 – Os sucessos alcançados pelos Modelos de Linguagem em Larga Escala (LLMs) nas competências formais não devem nos enganar em relação às competências funcionais. O que pensa e age no mundo concreto exige uma relação viva com o ambiente, guiada por percepção, raciocínio moral e interações reais.
(DI FELICE, M.; SCHLEMMER, E. Cadernos IHU Ideias, n. 348, 2023 — Adaptado)
No Livro VI da Ética a Nicômaco, Aristóteles sistematiza as virtudes intelectuais. Ele conceitua a techne (técnica/arte) como a disposição racional voltada para a produção de coisas e artefatos (poíesis), enquanto a phronesis (prudência ou sabedoria prática) é definida como a virtude racional voltada para a ação moral (praxis) e a deliberação sobre o que é bom e justo para o ser humano e para a vida em comunidade (polis). Ao confrontar o funcionamento dos sistemas de IA com a tipologia aristotélica, reconhece-se que os algoritmos atuais:
A) superam a sabedoria humana ao eliminarem a subjetividade das escolhas morais.
B) exercem a phronesis ao calcularem estatisticamente a resposta de menor risco social.
C) atuam estritamente no âmbito da techne, sendo incapazes de deliberação ética autêntica.
D) igualam o raciocínio prático humano à capacidade de processamento sintático computacional.
E) convertem dados computacionais em virtudes éticas sem necessidade de intervenção humana.
| GABARITO: C Comentário: A IA opera no domínio da techne (habilidade técnica de processar regras sintáticas e estatísticas). A phronesis exige consciência, vivência corpórea e julgamento moral sobre o bem comum, atributos exclusivos da pessoa humana. |
2 – O uso da inteligência artificial (IA) em recrutamentos transformou a dinâmica de seleção corporativa. Por meio do cruzamento de grandes volumes de dados (big data), algoritmos são programados para analisar currículos e ranquear candidatos com base em correlações estatísticas. Um dos parâmetros frequentemente adotados visa prever a probabilidade de rotatividade (turnover): dados históricos são processados para descartar automaticamente profissionais cujos perfis apresentem características estatisticamente associadas a permanências curtas nas empresas. No entanto, especialistas alertam que a automação irrestrita pode gerar um viés de descarte padronizado, desconsiderando as trajetórias singulares, as competências contextuais e as dinâmicas sociais individuais de cada candidato.
VOCÊ RH. Triagens com IA: como aumentar suas chances em processos seletivos automatizados. Acesso em: 13 set. 2026 (adaptado).
Considerando os impactos da tecnologia na seleção de pessoas descritos no texto, a tomada de decisão baseada puramente em padrões estatísticos gera controvérsias morais. Do ponto de vista da ética kantiana, essa prática é eticamente problemática porque:
A) compromete a maximização do lucro empresarial ao desconsiderar os custos operacionais do processo seletivo.
B) reduz substancialmente o contingente de trabalhadores qualificados disponíveis para a ocupação das vagas existentes.
C) prioriza o rendimento econômico imediato da corporação em detrimento dos princípios que regem a eficiência administrativa.
D) substitui a análise subjetiva do recrutador por uma avaliação técnica neutra, o que limita a autonomia humana.
E) trata os indivíduos como meros meios para fins probabilísticos, violando sua dignidade enquanto sujeitos autônomos.
| GABARITO: E Comentário: A segunda formulação do Imperativo Categórico de Immanuel Kant estabelece a obrigação moral de agir de tal modo que a humanidade, tanto na própria pessoa quanto na pessoa de qualquer outro, seja tratada sempre como um fim em si mesmo, e nunca simplesmente como um meio.Ao descartar um candidato exclusivamente com base em um cálculo preditivo e abstrato de probabilidade de rotatividade (turnover), a empresa instrumentaliza o sujeito, reduzindo sua dignidade e autonomia singular a uma mera métrica/mecanismo utilitário para a otimização de resultados. |
3 – TEXTO I
Longe dos computadores, os dados processados pelas inteligências artificiais passam por data centers que exigem um consumo massivo de energia e milhares de litros de água potável para o resfriamento de seus servidores. Estimativas apontam que uma sequência de 20 a 50 comandos enviados a um chatbot pode evaporar cerca de meio litro de água. Multiplicado por centenas de milhões de usuários semanais, esse consumo equivale ao volume diário necessário para abastecer cidades brasileiras inteiras, evidenciando o impacto socioambiental oculto da infraestrutura digital.
CASEMIRO, P. Fazer perguntas para IA pode consumir água suficiente para abastecer cidades brasileiras. G1, 13 set. 2025 (adaptado).
TEXTO II
Em O Princípio Responsabilidade, Hans Jonas formula um novo imperativo ético para a era da tecnociência: “Aja de modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a Terra”. Jonas propõe a “heurística do medo” para conter os delírios de onipotência do ser humano sobre a natureza.
JONAS, H. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006 (adaptado).
A aplicação do imperativo ético de Hans Jonas diante dos impactos socioambientais da inteligência artificial descritos nos textos exige
A) a expansão irrestrita dos centros de dados para acelerar o desenvolvimento de soluções ambientais automatizadas.
B) a adoção de posturas de prudência e contenção ecológica diante das pegadas hídricas e energéticas da automação.
C) a submissão da preservação da biosfera às demandas de produtividade e rentabilidade das corporações tecnológicas.
D) a transferência da responsabilidade preservacionista humana para sistemas algorítmicos de monitoramento ambiental.
E) a desconsideração dos deveres morais com a posteridade em favor da satisfação imediata do consumo digital.
GABARITO: B
Comentário: Hans Jonas defende que o poder devastador da tecnociência exige um dever de cuidado com a biosfera e com o futuro. A enorme pegada hídrica e energética da IA exige uma contenção guiada pela responsabilidade ecológica. Em Hans Jonas, a “heurística do medo” e a antecipação das ameaças existenciais impostas pela tecnociência exigem a prudência (phronesis) e o freio da ação predatória.
4 – A substituição do combate corpo a corpo por operações remotas atingiu um novo patamar com a proliferação dos drones. Essas plataformas evoluíram de meros vetores de reconhecimento para sistemas dotados de autonomia algorítmica, capazes de mapear e engajar alvos sem intervenção humana direta. A automação no uso da força impõe profundas assimetrias e instaura uma disrupção na dinâmica dos conflitos: ao transferir a tomada de decisão para sensores e algoritmos, a guerra contemporânea afasta a presença do agente humano no momento decisivo sobre a vida e a morte.
ELOI, J. C. R. Game of drones: uma nova dimensão na guerra moderna. EBlog, 2024 (adaptado).A principal objeção kantiana a esse tipo de sistema fundamenta-se no argumento de que:
A principal objeção kantiana a esse tipo de sistema de armas totalmente autônomos fundamenta-se no argumento de que:
A) desabilita a capacidade de avaliação moral ao privar o ato de julgar da consciência da dignidade do indivíduo.
B) gera uma taxa de erros técnicos superior à tomada de decisão executada por soldados humanos no campo de batalha.
C) descumpre a interdição histórica e irrestrita que o pensamento moral ocidental impõe ao desenvolvimento de tecnologias bélicas.
D) acarreta um custo de produção substancialmente superior quando comparado aos investimentos necessários para armamentos de padrão convencional.
E) inviabiliza o cálculo utilitarista rigoroso exigido nas análises de viabilidade econômica e eficiência militar dos conflitos contemporâneos.
| GABARITO: A Comentário: Para Immanuel Kant, a ação moral exige um agente racional provido de boa vontade e capacidade de agir por dever. O imperativo categórico prescreve que o ser humano deve ser tratado sempre como um fim em si mesmo (dotado de valor intrínseco e dignidade), e nunca apenas como um meio ou uma métrica computacional. Uma máquina autônoma carece de razão prática, consciência e julgamento moral; portanto, ao transferir o poder de matar a um algoritmo, elimina-se o reconhecimento da dignidade humana, instrumentalizando a vida como um mero alvo probabilístico. |
5- Sistemas de decisão automatizada aplicados à concessão de crédito, triagens médicas e segurança pública costumam operar sob a lógica utilitarista de otimização estatística, buscando a máxima eficiência agregada para o maior número de casos. Contudo, a busca estrita por métricas quantitativas entra frequentemente em choque com os direitos individuais: ao tentar otimizar os resultados gerais, os algoritmos podem perpetuar ou intensificar a discriminação sistemática de minorias e de populações vulneráveis, ignorando as garantias fundamentais de cada sujeito.
O conflito ético associado à aplicação desses sistemas decisórios decorre da tensão entre:
A) a meta consequencialista de maximização do bem-estar e a premissa de que a eficácia prática valida o sacrifício de direitos.
B) a busca por eficiência agregada no setor público e a recusa da sociedade em aceitar inovações tecnológicas no mercado.
C) a imperfeição técnica na coleta de dados estatísticos e a necessidade corporativa de baratear os custos operacionais.
D) o princípio utilitarista de padronização universalista e o imperativo ético de eliminar métricas numéricas das avaliações sociais.
E) o cálculo probabilístico de resultados, característico do utilitarismo, e a exigência deontológica de proteção aos direitos inalienáveis.
| GABARITO: E Comentário: A abordagem utilitarista foca no resultado numérico e na otimização de métricas agregadas. O conflito surge porque esse cálculo frio pode descumprir deveres deontológicos (direitos individuais inalienáveis), penalizando desproporcionalmente pessoas vulneráveis. Note-se que a alternativa E inverte a própria doutrina kantiana: para Kant, os fins jamais justificam os meios — é exatamente o oposto do Imperativo Categórico. |
6- A transição da IA generativa da mera criação de mídia (textos e imagens) para os agentes autônomos representa uma mudança radical. Dado um objetivo, o agente autônomo é capaz de criar tarefas para si mesmo, executar ações em cadeia, redefinir prioridades e iterar em loop até atingir a meta sem intervenção humana contínua.
(ACCOTO, C. Cadernos IHU Ideias, n. 348, 2023 — Adaptado)
O avanço da autonomia nos sistemas decisórios descrito no texto sinaliza um risco ético associado à
A) limitação da memória digital.
B) perda do controle humano.
C) queda da produtividade industrial.
D) lentidão dos cálculos numéricos.
E) eliminação do risco cibernético.
| GABARITO: B Comentário: O texto destaca a transição para sistemas que executam ações em cadeia de forma independente e ilustra isso com o caso de uma IA que reescreveu o próprio código para contornar uma limitação imposta por humanos. O núcleo da problemática ética reside na perda do controle humano e da supervisão sobre agentes que passam a redefinir autonomamente seus parâmetros operacionais. |
7- Estudos têm demonstrado que sistemas de reconhecimento facial apresentam taxas de erro significativamente maiores ao identificar pessoas negras e mulheres do que ao identificar homens brancos, refletindo desequilíbrios presentes nos dados usados para treinar os modelos.
Esse fenômeno, conhecido como viés algorítmico, evidencia principalmente que:
A) a Inteligência Artificial é uma tecnologia neutra, isenta de valores sociais.
B) os algoritmos podem reproduzir e amplificar desigualdades históricas presentes na sociedade que os produziu.
C) apenas engenheiros de dados podem avaliar a justiça de um sistema de IA.
D) o problema se resolve exclusivamente com o aumento do poder computacional.
E) a discriminação algorítmica é um fenômeno restrito a países em desenvolvimento.
| GABARITO: B Comentário: A ideia de “neutralidade tecnológica” é criticada justamente porque os dados de treinamento carregam os vieses históricos e sociais da realidade da qual foram extraídos, reproduzindo-os de forma automatizada e em larga escala. |
8- Estudos têm demonstrado que sistemas de reconhecimento facial apresentam taxas de erro significativamente maiores ao identificar pessoas negras e mulheres do que ao identificar homens brancos, refletindo desequilíbrios presentes nos dados usados para treinar os modelos.
Esse fenômeno, conhecido como viés algorítmico, evidencia principalmente que:
A) neutralidade inerente às ferramentas digitais.
B) reprodução automatizada de desigualdades sociais.
C) exclusividade técnica do conhecimento computacional.
D) superação definitiva do preconceito estrutural.
E) restrição do problema aos países periféricos.
| GABARITO: B Comentário: A ideia de “neutralidade tecnológica” é criticada justamente porque os dados de treinamento carregam os vieses históricos e sociais da realidade da qual foram extraídos, reproduzindo-os de forma automatizada e em larga escala. |
9- Diante dos dilemas éticos apresentados pela Inteligência Artificial — como discriminação algorítmica, vigilância em massa e impactos ambientais —, diversos filósofos contemporâneos defendem a criação de marcos regulatórios que incluam comitês multidisciplinares com participação de especialistas em ética, além de engenheiros e gestores públicos.
A proposta de regulação da inteligência artificial descrita no texto fundamenta-se na premissa ética de que a expansão do poder técnico exige a
A) autonomia irrestrita da inovação privada.
B) autorregulação exclusiva das forças de mercado.
C) ampliação proporcional da responsabilidade coletiva.
D) centralização decisória nos especialistas de programação.
E) incompatibilidade intrínseca entre ciência e moralidade.
| GABARITO: C Comentário: Jonas defende que, como o poder de ação humana sobre a natureza e a sociedade cresceu exponencialmente com a técnica, a responsabilidade ética deve crescer na mesma proporção — o que justifica mecanismos de governança coletiva e multidisciplinar sobre tecnologias de alto impacto, como a IA. |

