Lá Vem o Enem reúne obras que ajudam a discutir temas como saúde mental, desigualdade social, inteligência artificial, racismo estrutural e meio ambiente, com orientações da professora de redação Josy Kelly.

Filmes, séries e livros podem ajudar os candidatos a construir argumentos para a redação do Enem 2026, desde que as referências sejam relacionadas ao tema proposto e utilizadas para sustentar um ponto de vista. Obras da cultura popular e da literatura abordam questões como desigualdade social, saúde mental, tecnologia, racismo estrutural e preservação ambiental, que podem contribuir para a construção de uma argumentação consistente.
A professora de redação Josy Kelly, que apresentou sugestões ao Lá Vem o Enem, indica produções de diferentes gêneros que podem ser aproveitadas na preparação para o exame. Entre elas estão títulos como Toy Story 5, O Diabo Veste Prada 2, Adolescência, Torto Arado e 1984.
O uso dessas referências, porém, exige mais do que memorizar nomes de obras. O candidato precisa compreender o contexto da narrativa e explicar como ela se relaciona com o problema discutido na proposta. A seleção de filmes, séries e livros não representa uma previsão dos assuntos que serão cobrados na prova.
5 filmes que podem ajudar na redação do Enem 2026
As produções cinematográficas oferecem diferentes possibilidades de repertório sociocultural, desde questões relacionadas ao cotidiano até debates sobre direitos sociais e transformações tecnológicas.
1. Toy Story 5: infância e uso de telas

A animação aborda a relação entre a infância e a tecnologia ao mostrar Bonnie cada vez mais interessada em um tablet, enquanto os brinquedos tradicionais perdem espaço em sua rotina.
A história pode servir de referência para discutir o uso excessivo de dispositivos digitais por crianças, a participação dos responsáveis na educação digital e a importância das brincadeiras e da convivência social para o desenvolvimento infantil.
Na redação, o candidato pode relacionar a narrativa à necessidade de equilibrar o acesso à tecnologia com atividades físicas, interações presenciais e outras experiências importantes para a infância.
2. O Diabo Veste Prada 2: pressão profissional e tecnologia

Ambientada no universo da moda e do jornalismo, a continuação da história permite refletir sobre as transformações do mercado editorial e os desafios para manter publicações relevantes em um cenário de mudanças tecnológicas.
A produção pode ser utilizada em discussões sobre sobrecarga de trabalho, cobrança por produtividade e esgotamento profissional. Também oferece caminhos para abordar as dificuldades enfrentadas por trabalhadores diante das mudanças nas profissões e da crescente competitividade no mercado.
3. O Outro Lado das Redes: algoritmos e saúde mental

O documentário aborda questões relacionadas ao funcionamento das plataformas digitais e aos possíveis impactos de suas práticas na sociedade.
A obra pode contribuir para uma argumentação sobre a relação entre algoritmos, busca por engajamento e saúde mental, especialmente entre os jovens. Outros temas possíveis são a proteção de dados pessoais, a segurança da informação e a transparência das empresas de tecnologia.
Para utilizar a referência, o candidato deve explicar como o funcionamento das plataformas se relaciona com o problema apresentado na proposta de redação.
4. Michael: infância, fama e indústria cultural

A cinebiografia de Michael Jackson acompanha a trajetória do cantor desde a infância até o reconhecimento internacional. A história permite discutir as consequências da exposição precoce à fama e as exigências da indústria do entretenimento.
Na redação, a produção pode fundamentar argumentos sobre proteção de crianças e adolescentes no ambiente profissional, pressão por resultados desde os primeiros anos de vida e influência da indústria cultural na construção de ídolos e identidades coletivas.
5. A Odisseia: humanidade e meio ambiente

A adaptação cinematográfica da obra clássica de Homero oferece possibilidades de reflexão sobre a relação entre os seres humanos, a natureza e os limites da ação humana.
O repertório pode ser associado a temas como crise ambiental, exploração dos recursos naturais e consequências sociais dos desastres ecológicos. Também permite desenvolver discussões sobre racismo ambiental e desigualdade na distribuição dos riscos climáticos, incluindo os deslocamentos de populações atingidas por eventos extremos.
5 séries que podem ser usadas como repertório na redação
As séries também podem ajudar a contextualizar problemas sociais, políticos e econômicos. O mais importante é selecionar uma narrativa pertinente ao tema e explicar sua contribuição para o argumento.
1. Adolescência (2025): saúde mental e influência digital

A minissérie acompanha a história de um garoto acusado de matar uma colega e os desdobramentos da investigação. A trama abre espaço para discutir a formação de adolescentes, as relações familiares e escolares e a influência do ambiente digital.
Entre os assuntos que podem ser relacionados à produção estão saúde mental de crianças e adolescentes, isolamento social e violência entre jovens. A narrativa também permite abordar a influência de comunidades digitais sobre comportamentos e a importância de redes de apoio para identificar e enfrentar situações de sofrimento psicológico.
2. Emergência Radioativa (2026): fiscalização e riscos sanitários

A série aborda o abandono de um aparelho radiológico e as consequências da falta de controle sobre materiais perigosos. A história permite discutir a responsabilidade das instituições públicas na prevenção de acidentes e na proteção da população.
Na redação, a obra pode ser relacionada à fiscalização ambiental e sanitária, à proteção de comunidades vulneráveis e à divulgação de informações confiáveis durante emergências. A alfabetização científica e o combate à desinformação também são possibilidades de abordagem.
3. The Pitt (2025): desafios da saúde pública

A produção acompanha profissionais de saúde que trabalham em um pronto-socorro marcado pela alta demanda e pela limitação de recursos.
O cenário pode ser utilizado para discutir os desafios enfrentados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a necessidade de investimentos em infraestrutura e a sobrecarga dos trabalhadores da área. Outros caminhos incluem o acesso desigual aos serviços de saúde e a importância de políticas públicas para garantir atendimento de qualidade.
4. O futuro de Bill Gates (2024): inteligência artificial e desigualdade

O documentário permite explorar questões relacionadas ao desenvolvimento tecnológico e aos impactos das transformações digitais na sociedade.
A produção pode contribuir para debates sobre inteligência artificial, regulamentação de novas tecnologias e desigualdade no acesso à inovação. A concentração de poder econômico e a disseminação de desinformação nas redes também podem ser discutidas a partir dessas questões.
Para fortalecer o argumento, é importante explicar como os assuntos apresentados no documentário se conectam ao problema abordado na proposta.
5. O Mecanismo (2018): corrupção e serviços públicos

Inspirada em acontecimentos relacionados à Operação Lava Jato, a série aborda investigações de corrupção e relações entre agentes públicos e interesses privados.
A narrativa pode servir como referência para discutir corrupção, impunidade e desvio de recursos públicos, além dos impactos desses problemas na oferta de serviços essenciais. O candidato também pode relacionar a obra à transparência administrativa e à importância dos mecanismos de fiscalização e controle.
5 livros para ampliar o repertório sociocultural
A literatura oferece referências para discutir problemas históricos e contemporâneos. Obras que retratam desigualdades, relações de poder e restrições às liberdades individuais podem ajudar o candidato a desenvolver argumentos mais contextualizados.
1. Torto Arado, de Itamar Vieira Junior: desigualdade no campo

O romance acompanha as irmãs Bibiana e Belonísia e retrata a realidade de trabalhadores rurais submetidos à exploração e à desigualdade. A narrativa apresenta estruturas sociais marcadas por heranças históricas da escravidão.
A obra pode fundamentar discussões sobre racismo estrutural, concentração de terras e exploração do trabalho rural. Também permite abordar a exclusão social e as dificuldades enfrentadas por comunidades tradicionais para ter seus direitos reconhecidos e acessar políticas públicas.
2. 1984, de George Orwell: vigilância e manipulação

Publicado em 1949, o romance apresenta uma sociedade submetida ao controle de um regime autoritário, representado pela figura do Grande Irmão. Nesse contexto, a vigilância e a manipulação de informações limitam a autonomia dos indivíduos.
A obra pode ser relacionada à privacidade na internet, ao monitoramento de dados e à disseminação de desinformação. Também oferece referências para discutir autoritarismo, liberdade de expressão e os riscos da concentração de poder sobre a informação.
3. Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, de Carolina Maria de Jesus: pobreza e invisibilidade social

Publicado em 1960, o livro registra experiências da vida de Carolina Maria de Jesus na favela do Canindé, em São Paulo. A autora relata situações de fome, pobreza e dificuldades para sustentar os filhos.
Por apresentar a desigualdade a partir da experiência de quem a vivencia, a obra é uma referência para discutir insegurança alimentar, exclusão social e marginalização da população periférica. Também permite refletir sobre a responsabilidade do Estado na garantia de direitos fundamentais, como moradia, alimentação, educação e saúde.
4. Fahrenheit 451, de Ray Bradbury: leitura e pensamento crítico

O romance distópico apresenta uma sociedade em que os livros são proibidos e queimados, enquanto o acesso ao conhecimento é restringido. A censura e o controle das informações dificultam o desenvolvimento do pensamento crítico.
Na redação, o livro pode sustentar argumentos sobre a importância da leitura e da educação, os riscos da censura e a desvalorização do conhecimento científico. A narrativa também permite discutir os efeitos da desinformação e do consumo superficial de conteúdos sobre a capacidade de análise da população.
5. Niketche, de Paulina Chiziane: autonomia feminina

O romance da escritora moçambicana acompanha Rami, que descobre os relacionamentos extraconjugais do marido e passa a se relacionar com as outras mulheres envolvidas na situação. A narrativa aborda relações de poder, desigualdades de gênero e formas de organização familiar.
A obra pode ser utilizada para discutir emancipação feminina, padrões patriarcais e obstáculos à autonomia das mulheres. Também permite abordar a solidariedade feminina e a necessidade de combater a violência e a discriminação de gênero.
Como usar filmes, séries e livros na redação do Enem
Para transformar uma referência cultural em um argumento consistente, o candidato precisa relacionar a obra ao tema da proposta, explicar o problema discutido e demonstrar como aquela referência sustenta seu ponto de vista.
Uma estratégia é organizar o parágrafo em três etapas: apresentar a obra e seu contexto, estabelecer a relação com o problema e desenvolver a análise com base na realidade social. A simples menção ao título, sem explicação, tende a ter pouco valor argumentativo.
Também é importante evitar associações genéricas. O romance 1984, por exemplo, pode contribuir para uma discussão sobre vigilância digital quando o candidato relaciona o controle retratado na narrativa à coleta de dados na sociedade contemporânea. Já Quarto de Despejo pode fundamentar uma análise sobre pobreza quando a obra é conectada à insegurança alimentar e à falta de acesso a direitos básicos.
O repertório sociocultural deve funcionar como apoio à argumentação, e não como substituto da análise do candidato. Por isso, mais importante do que decorar uma lista de filmes, séries e livros é compreender os assuntos abordados, selecionar referências pertinentes e utilizá-las de maneira coerente com a proposta de redação.
