Estudantes utilizaram referências históricas, filmes e conceitos filosóficos para discutir a valorização da herança africana e os desafios do envelhecimento no Brasil.
Estudantes que tiraram nota mil na redação do Enem em 2024 e 2025 utilizaram referências históricas, filmes e conceitos filosóficos para desenvolver argumentos sobre temas sociais. Os textos abordaram a valorização da herança africana no Brasil e os desafios enfrentados pela população idosa.
A redação é uma das etapas do exame e exige que os candidatos desenvolvam uma argumentação sobre o tema proposto. Conhecer exemplos de textos que alcançaram a pontuação máxima pode ajudar quem está se preparando para entender como organizar ideias e utilizar repertórios na escrita.
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5 exemplos de desenvolvimentos nota mil
Lucas Rodrigues – 2025, em Lauro de Freitas (BA)
Sob essa lógica, convém destacar a negligência do Estado como agravante dessa problemática. Isso ocorre, porque tal instituição não oferece políticas públicas em quantidade e eficiência suficientes para os idosos, comprometendo a sua qualidade de vida. Acerca disso, Achille Mbembe, filósofo camaronês, afirma, a partir de seu conceito de “Necropolítica”, que o Estado decide quem vive e quem é destinado a um projeto de morte. Nesse rumo, percebe-se que a ideia do filósofo é autêntica e aplicável ao contexto do envelhecimento na sociedade brasileira, uma vez que, devido à composição hegemônica do corpo político (deputados e senadores majoritariamente distantes dos 65 anos, isto é, alheios à realidade da velhice), são escassas as políticas públicas, como a garantia de equipes especializadas em geriatria nas UBS, destinados a esse público. Em efeito, sem, por exemplo, enfermeiros e médicos em quantidade e capacitação adequados nos sistemas públicos de saúde, os idosos, cada vez mais, sobrevivem sem condições dignas de vida. Dessa forma, fica claro que a parcialidade na distribuição de qualidade de vida, cometida pelo Estado e criticada por Mbembe, é nociva ao bom envelhecimento dos cidadãos do Brasil.
Outrossim, cabe analisar a má conduta das empresas como fortalecedora dessa questão. Afirma-se isso, pois grande parte do setor privado não se preocupa com a senescência dos funcionários, acelerando a sua morte. Sob tal contexto, Jim Collins, empresário norte-americano, afirma que a mentalidade empresarial é egoísta e gananciosa. Nesse viés, a afirmação de Collins é verdadeira, já que, pela motivação gananciosa de maximizar seus lucros, muitas empresas não garantem uma vida ativa aos seus colaboradores idosos, deixando, por exemplo, de investir em programas como o “Gympass” (um plano que dá acesso a diversas academias e atividades esportivas). Por conseguinte, esses cidadãos, muitos sobrecarregados com jornadas exaustivas de trabalho, acumulam comorbidades, a exemplo da obesidade ou doenças psíquicas, como a ansiedade, o que pode acelerar a sua morte. Dessa maneira, é evidente que a conduta egoísta das empresas, exposta por Collins, prejudica o envelhecimento dos brasileiros.
Caio Silva Braga – 2025, em Recife (PE)
Historicamente, no Brasil, envelhecer é um privilégio, não um direito. Isso é evidenciado por estratégias de manutenção da ordem social implementadas pelas elites, como a promulgação da Lei do Sexagenário — uma das leis pré-abolicionistas, que libertava escravizados maiores de sessenta anos. Ao contrário do senso comum, que vê essa medida como uma conquista para eles, a historiografia entende que essa medida não tinha intenções reais de oferecer liberdade a essas pessoas, pois suas expectativas de vida eram baixíssimas. Nesse cenário, portanto, envelhecer não era uma oportunidade para todos os brasileiros, mas um privilégio de alguns.
Por outro lado, correntes contemporâneas de pensamento colocam os idosos e o envelhecimento em outras posições: de enfrentamento ao etarismo, de atividade física e econômica e de engajamento político e social. Um exemplo disso é o filme estrelado por Fernanda Montenegro, em 2025, “Vitória”, em que a atriz interpreta uma senhora em uma comunidade periférica no Rio de Janeiro e expõe suas denúncias contra a violência e o tráfico onde vive. Sob essa óptica, a figura do idoso deixa um espaço de fragilidade e impotência e passa a assumir protagonismo de sua própria vida.
Wellington Ribeiro – 2025, em Recife (PE)
Diante desse cenário, nota-se que a dificultosa promoção de um futuro digno à terceira idade advém de um processo de desenvolvimento nacional pautado na exclusão socioespacial. Isso pode ser constatado, de forma evidente, pois o país, desde o período do Brasil Colônia, foi construído por práticas violentas (como a promulgação da Lei dos Sexagenários), as quais visavam à marginalização de escravizados com mais de 60 anos em detrimento da inserção respeitosa dessa parcela da população no cotidiano brasileiro. Nesse sentido, essa atitude segregacionista mascara, há gerações, a necessidade de reverter esse revés e naturaliza, nos dias atuais, o silenciamento desenfreado dos idosos, produzindo culturalmente a ideia de inferioridade desse grupo. Assim, torna-se inegável o contínuo retrocesso da nação a cerca do reconhecimento da velhice como importante e inevitável, à medida que a manutenção de raízes históricas degradantes existe.
Ademais, é fundamental ressaltar que a negligência estatal perpetua a aversão social ao inerente envelhecimento populacional. Essa questão se intensifica, na atualidade, ao passo que o Brasil não possui uma campanha nacional concreta e eficaz de estímulo à qualidade de vida da terceira idade. Tal panorama foi estudado pelo pesquisador Ruy Braga, o qual, a partir de uma perspectiva crítica voltada à realidade latino-americana, verbaliza que a ausência de um modelo assistencial inclusivo e socialmente comprometido permite o não reconhecimento dos idosos como integrantes ativos da sociedade. Sob essa ótica, o posicionamento do estudioso é válido, visto que políticas públicas ineficientes possibilitam a precarização do bem-estar da terceira idade, de modo a qualificar essa faixa etária como pouco importante para a edificação da nação – suprimindo o seu futuro salutar. Por isso, essa situação hostil precisa ser revertida.
Carlos Eduardo Gomes dos Santos – 2025, em Mombaça (CE)
Diante desse cenário, faz-se mister mencionar a ausência de políticas públicas de saúde para a população idosa como um dos fatores dessa estigmatização. Nessa ideia, verifica-se que esse panorama é facilmente encaixado no conceito de “necropolítica”, descrito pelo filósofo Achille Mbembe para explicar o poder do Estado de decidir quem pode viver e quem deve morrer. Partindo dessa lógica, o “deixar morrer” é visível quando se observa a realidade de milhares de idosos na comunidade brasileira, haja vista que a omissão dos órgãos estatais afeta a qualidade de vida, evidenciada pelo não destino de verbas que garantam o desenvolvimento de atividades físicas e interativas nos Centros de Referência Especializado e de Assistência Social (CREAS), além da ausência de campanhas preventivas, nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), para doenças que acometem essa idade, como diabetes e hipertensão. Consequentemente, perpetua-se uma sociedade que marginaliza o envelhecimento e que sofre com os impactos causados por essa desassistência: o aumento de doenças e, com isso, o aumento de gastos públicos. Logo, fica clara a necessidade de reformular essa postura do Estado urgentemente.
Outrossim, é válido destacar, também, que a inexistência de abordagens midiáticas sobre a importância do envelhecimento configura-se como uma das causas desse imbróglio. Segundo o filósofo estadunidense Noam Chomsky, em sua obra “A fabricação do consentimento”, afirma que a maneira mais inteligente de manter as pessoas passivas é limitar o seu espectro de opinião e criticidade. Nessa acepção, conclui-se que esse comportamento intencional legitimado pelo filósofo é visualizado na agenda dos aparelhos midiáticos que envolve o envelhecimento devido à mentalidade etarista que se expressa, principalmente, pela não abordagem da importância da inclusão profissional e da representatividade em espaços importantes — a exemplo de cargos políticos e vagas em universidades — desses indivíduos. Por conseguinte, cria-se uma malha social que distancia a população idosa do convívio social, relegando-os à solidão e à passividade social. Assim, enquanto persistir essa exclusão midiática, jamais será possível atenuar esse óbice.
Danilo Oliveira Batista – 2024, em São Luís (MA)
Diante do cenário exposto, as políticas públicas ineficazes possibilitam a desvalorização do legado africano no país, uma vez que elas impedem o estabelecimento concreto de uma revisão histórica pautada em mais oportunidades, proteção e visibilidade para pessoas pretas. Consoante o sociólogo Émile Durkheim, uma sociedade sem regras claras, sem valores e sem limites encontra-se em estado de anomia social. Nesse sentido sociológico, esse estado anômico pode ser observado na hodierna realidade brasileira, na medida em que as políticas públicas ineficientes permitem o desprezo e o desrespeito com as religiões de matriz africana, a desassistência em áreas quilombolas e a ausência de representatividade em propagandas, por exemplo. Com base nisso, uma mudança urgente e pragmática deve ser realizada, visando à transformação dessa conjuntura, de modo a não só valorizar a herança africana no país, como também a protegê-la.
Ademais, as falhas educacionais também constituem-se como importantes fatores que aprofundam o descaso com o legado africano no Brasil. Segundo o filósofo Inmanuel Kant, “o homem é aquilo que a educação faz dele”. Sob esse prisma filosófico, essas falhas educacionais solidificam mentalidades alienadas na população, potencializando preconceitos e ratificando equívocos concernentes à cultura africana no país. Nesse viés, a própria formação do cidadão brasileiro – no que tange à África e sua herança – é maculada por noções desprovidas de veracidade e etnocêntricas, corroborando a desvalorização da pluralidade e das “raízes africanas”, presentes em campos variados, como a gastronomia, a dança e a religião, representados respectivamente, pelo acarajé, pelo tambor de crioula e pelo candomblé. Então, torna-se imperiosa a correção imediata dessas falhas, no sentido de debelar erros e ampliar visões africanas positivas.
Gostou dos exemplos? Aproveite as referências para ampliar seu repertório e treinar a escrita. Continue acompanhando o Lá Vem o Enem para conferir mais dicas e conteúdos que podem ajudar na preparação para a prova.
