Vídeos curtos podem ajudar na revisão e despertar a curiosidade, mas especialistas alertam para distrações e perda de concentração durante os estudos.
Você entra no TikTok só para ver uma explicação rapidinha de matemática. Quando percebe… já está no décimo vídeo, passou por uma receita, viu um meme, descobriu uma fofoca e nem lembra mais qual era a questão que estava tentando resolver. 😅
A cena é comum entre estudantes e levanta uma dúvida importante: afinal, dá para estudar pelo TikTok e por outras redes sociais sem cair na armadilha da distração?
Segundo Fábio Nudge, especialista em Consciência Digital, as redes sociais facilitaram muito o acesso ao conhecimento. Em poucos segundos, o estudante consegue procurar uma dúvida de matemática, uma regra de português ou uma dica para a redação e encontrar diferentes explicações.
O formato também ajuda a chamar a atenção: vídeos curtos, linguagem visual e conteúdos que parecem conversar diretamente com o que os jovens já consomem no dia a dia.
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Mas existe um detalhe importante nessa história: o mesmo algoritmo que pode levar você até uma boa aula também pode entregar uma sequência infinita de distrações.
“Pode ser ótimo para despertar curiosidade e facilitar o primeiro contato com um assunto. O problema aparece quando confundimos facilidade de consumir informação com facilidade de aprender. Conteúdos de 30 segundos ou um minuto conseguem explicar algumas coisas muito bem, mas outros assuntos exigem contexto, reflexão, leitura, prática e profundidade”, explica Fábio Nudge.
Como o algoritmo sabe o que mostrar para você?
Sabe aquele momento em que você pesquisa um vídeo de redação e, depois disso, parece que só aparece Enem no seu feed? Não é impressão sua.
De forma simples, o algoritmo aprende com o comportamento de cada usuário. Curtidas, comentários, compartilhamentos, conteúdos salvos, perfis seguidos e até o tempo que você passa assistindo a um vídeo ajudam a indicar para a plataforma aquilo que chama sua atenção.
E tem um detalhe curioso: nem sempre é a curtida que mais importa.
“Um dos sinais mais importantes nem sempre é o ‘curtir’. O tempo que permanecemos em determinado conteúdo também ajuda a plataforma a entender nossos interesses. Por isso, às vezes começamos a assistir a um determinado assunto por curiosidade e, pouco tempo depois, temos a sensação de que ‘só aparece isso’ no nosso feed. Na prática, nossos próprios comportamentos ajudaram a ensinar o algoritmo”, explica o especialista.
Ou seja: o algoritmo não está simplesmente “mandando” o que você deve assistir. Você também está ensinando o algoritmo.
Algumas plataformas oferecem ainda a opção de redefinir as recomendações, como uma espécie de “reset” do feed. Também é possível mudar o que aparece na tela aos poucos, escolhendo de forma mais consciente o que assistir, seguir, pesquisar e ignorar.
“Isso é Consciência Digital na prática: perceber que não somos apenas influenciados pelo algoritmo, nós também influenciamos o algoritmo. Se nossas escolhas treinam aquilo que ele vai nos entregar, podemos ser mais conscientes sobre os sinais que damos às plataformas”, comenta.
O algoritmo pode ajudar quem está estudando para o Enem?
Segundo Fábio Nudge, o algoritmo das redes sociais pode passar a recomendar mais conteúdos relacionados ao Enem quando o usuário demonstra interesse por esses assuntos.
Fábio explica que esse processo tem relação com um conceito de Inteligência Artificial chamado aprendizado de máquina, ou Machine Learning. Segundo ele, o sistema consegue identificar padrões a partir dos dados e ajustar suas recomendações.
“Se o estudante assiste até o final, repete, salva, compartilha, pesquisa assuntos semelhantes ou começa a seguir professores de matemática, por exemplo, a máquina identifica esses padrões e entende que aquele tipo de conteúdo tem maior probabilidade de interessá-lo. Por isso existe uma relação de mão dupla: o algoritmo influencia aquilo que você vê, mas você também ensina o algoritmo por meio das suas escolhas”, afirma Fábio.
Vídeo curto ajuda a aprender?
Aqui entra outra questão: estamos tão acostumados com conteúdos rápidos que, às vezes, parece estranho passar 30 minutos lendo um texto ou assistindo a uma aula.
Só que aprender nem sempre é rápido. Alguns conteúdos exigem leitura, repetição, exercício, reflexão e tempo. E isso pode ser muito importante para quem vai fazer o Enem.
“Isso é especialmente preocupante para quem vai fazer o Enem. A prova exige horas de concentração, leitura de textos longos, interpretação, raciocínio e capacidade de permanecer diante de um problema mesmo quando a resposta não aparece imediatamente. Não adianta treinar a atenção durante o ano inteiro para estímulos de poucos segundos e esperar que, no dia da prova, ela funcione por horas sem dificuldade”, alerta Fábio.
A psicopedagoga Alice Dias segue uma linha parecida.
Para ela, o celular pode ser uma ferramenta útil, mas abrir uma rede social durante o estudo também pode funcionar como um convite para a distração.
“Ter o celular na palma da mão com uma rede social aberta é um convite para distração. É bem melhor o estudante recorrer ao YouTube, site de professores conhecidos ou recomendados, plataformas que oferecem vídeoaulas de qualidade e completas que possam ajudar o estudante a assimilar o conteúdo e favorecer o uso de estratégias”, explica Alice.
Segundo a psicopedagoga, o problema não está necessariamente no vídeo curto. A questão é como ele entra na rotina de estudos.
“Podemos usar nosso celular para nos auxiliar nessa rotina, ou organizar um cronograma que deixe um espaço para que você use por um curto tempo, se isso for algo inevitável. Os vídeos curtos assistidos com muita frequência nos deixam impacientes diante dos vídeos longos que oferecem mais qualidade e são mais completos”.
Já percebeu como, depois de passar muito tempo vendo vídeos curtinhos, uma aula de 40 minutos pode parecer uma eternidade?
Alice explica que isso tem relação com a forma como o cérebro responde aos estímulos aos quais é exposto com frequência.
“Precisamos ver nosso cérebro como um órgão programável, sempre que ele é exposto a algum tipo de estímulo com frequência ele aprenderá a dinâmica daquilo. Nossa atenção sustentada é afetada e nos estudos vamos precisar dela para ler, se concentrar, resolver as questões consideradas mais difíceis. Quando assistimos passivamente, sem muito engajamento cognitivo com aquilo, perdemos a oportunidade de garantir esse conteúdo de forma mais precisa”, afirma.
E tem outro ponto importante: assistir não é o mesmo que aprender.
Um vídeo pode apresentar uma informação de maneira clara e rápida. Mas, depois disso, o estudante precisa interagir com aquele conteúdo.
Pode escrever, montar um esquema, fazer um mapa mental, ensinar o assunto para alguém, responder questões ou usar outro método que ajude a transformar a informação em conhecimento.
“O vídeo nos passa a informação (o estudo passivo). Em um estudo ativo usaremos essa informação para assimilar melhor, escrevendo, construindo esquemas, ensinando o que acabou de ver. E essa interação com o conteúdo com certeza será bem mais proveitosa do que apenas ‘saber da informação’”, diz.
Então eu preciso abandonar os vídeos curtos?
Calma. Não precisa deletar o TikTok hoje. 😂
A recomendação dos especialistas não é transformar os vídeos curtos em vilões, mas equilibrar o consumo.
Alice destaca que abandonar completamente esse formato pode não ser realista. O mais importante é não deixar que ele seja a única forma de contato com o conhecimento.
“Sempre orientamos nossos estudantes a mudar os hábitos. Sabemos que é meio que impossível abandonar 100% a ideia dos vídeos curtos, mas eles não são tão vilões. O que nos prejudica é não mesclar nosso dia a dia com coisas além disso”, comenta.
A psicopedagoga propõe algumas perguntas para ajudar nesse equilíbrio:
- Você também reserva um momento para leitura?
- Faz atividades que exigem atenção sustentada?
- Consegue assistir a uma vídeoaula mais longa?
- Assiste a um filme ou conversa sobre determinado assunto sem precisar de um resumo instantâneo?
A ideia é justamente sair da lógica do “preciso entender tudo em 30 segundos”.
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