O professor Rodrigo Paes reuniu explicações e referências da literatura afro-brasileira para ajudar os estudantes a resolver questões de Linguagens e Humanidades no Enem. A aula aborda autores importantes, obras literárias e o conceito de decolonialidade.
Na videoaula do Lá Vem o Enem, o professor de Literatura e História da Arte explica como identificar as características da literatura afro-brasileira e compreender o contexto social e histórico das obras. Um dos conceitos apresentados é a decolonialidade, que propõe questionar narrativas construídas a partir da perspectiva do colonizador e dar visibilidade a grupos historicamente silenciados.
Entre os autores destacados está Maria Firmina dos Reis, escritora de Úrsula, considerado um dos primeiros romances abolicionistas da literatura brasileira. Também aparecem Machado de Assis, Cruz e Sousa e Lima Barreto, nomes importantes para compreender a presença de questões sociais e raciais na literatura nacional.
O professor ainda apresenta escritoras como Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de Despejo; Conceição Evaristo, referência na literatura contemporânea; e Ana Maria Gonçalves, que escreveu Um Defeito de Cor. Jefferson Tenório e Itamar Vieira Junior também entram na lista de autores abordados.
A proposta é reconhecer como essas obras discutem temas como racismo, desigualdade, identidade e luta pela terra, conteúdos que podem aparecer contextualizados nas questões do Enem.
Antes de partir para a resolução das questões de Linguagens, vale conferir as explicações e revisar os autores apresentados na aula.
Resolva a questões sobre literatura afro-brasileira e decolonialidade:
QUESTÃO 01
Enem 2021
Eu-Mulher
(Conceição Evaristo)
Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.
- No poema de nossa já conhecida Conceição Evaristo, nota-se a necessidade de
A- construir uma imagem social aceitável para as mulheres e para os negros.
B- demonstrar que há esperança na construção de uma sociedade justa.
C- mistificar a maternidade, como aponta o terceiro e o quarto versos.
D- esclarecer a existência de uma sociedade patriarcal e silenciadora.
E- exaltar-se a figura feminina em meio a um mundo que a silencia.
QUESTÃO 02
(Enem 2025)
O retrato como gênero da pintura ocidental ficou vinculado às elites, tornando invisíveis as populações que não faziam parte do círculo dominante. Num país de tradição escravocrata e colonizado por europeus como o Brasil, pouquíssimas pessoas negras e indígenas foram retratadas em pintura, e menos ainda identificadas com seus nomes nos retratos. Daí a importância, para a história da arte e para a história brasileira, dos retratos de Dalton Paula.
Disponível em: www.masp.org.br. Acesso em: 5 maio 2024 (adaptado).
Ao dar protagonismo a Zeferina e a João de Deus Nascimento, o artista Dalton Paula evidencia que a(s)
A- a arte pode promover formas de afirmação de identidade social.
B- Comunidades periféricas passam a adquirir gênero retrato.
C- Personagens retratadas simbolizam a sociedade brasileira.
D- Pintura funciona como instrumento de ascensão social.
E- Imagens tradicionais preservam memórias afetivas.
QUESTÃO 03
(Enem 2025)
A característica fundamental no aprendizado das práticas rituais nos candomblés é o processo iniciático e participante. Durante o período de reclusão em terreiros ou rocas, o iniciado passa por uma série de ritos esotéricos (banhos rituais, raspagem da cabeça etc.), ao mesmo tempo em que começa a adquirir um complexo código de símbolos materiais (substâncias, folhas, frutos, raízes etc.) e de gestos associados a um repertório linguístico específico das cerimônias que se desenrolam nos contextos sagrados em geral e em cada terreiro em particular.
Esse repertório linguístico, genericamente chamado de “língua de santo” na Bahia, compreende uma terminologia religiosa operacional, de caráter mágico-semântico e de aparente forma portuguesa, mas que repousa sobre sistemas lexicais de diferentes línguas africanas que provavelmente foram faladas no Brasil escravocrata, vindo a constituir uma língua ritual, que se acredita pertencer à nação do vodum, do orixá ou do inquice, e não a determinada nação africana política atual.
Disponível em: https://periodicos.ufba.br. Acesso em: 21 jan. 2024 (adaptado).
A “língua de santo” tem sua importância para o patrimônio linguístico brasileiro por:
A- Apresentar uma carga semântica mítica.
B- Conservar elementos dos falares dos escravizados.
C- Resgatar expressões portuguesas do período colonial.
D- Decodificar o ritual religioso dos nossos antepassados.
E- Favorecer a compreensão do léxico africano contemporâneo.
QUESTÃO 04
(Enem 2025)
Só entende os corações desse lugar quem mergulha nesse mar a perder de vista e recoberto de cana caiana, cana fita, cana roxa, cana-de-macaco, açúcar, melado, rapadura, aguardente, fumo, mandioca, quiabos, pimentas, moendas, frutas, fruta-pão, sobrados, senzalas, tachos, casa de purgar. Um reino dentro de outro, com tudo o que se tem direito: reis, rainhas, príncipes e princesas, bobos da corte, cortesãos, conselheiros e escravos, muitos escravos. […]
A corte do massapé, como qualquer outra na história da humanidade, fazia tudo para não deixar escapar nenhum mísero grão dos seus domínios para quem estivesse de fora do seu apertado círculo. Os nomes se repetiam de pai para filho, para sobrinho, para netos e bisnetos, de forma concêntrica e repetitiva, para que não pairasse nenhuma dúvida de que são todos da mesma parentela. As farinhas todas num mesmo saco brasonado.
CRUZ, E. A. Água de barrela. Rio de Janeiro: Malê, 2018.
Nesse fragmento, o narrador enumera o resultado do trabalho com a terra, o qual, no contexto em que aparece,
A – espelha a permanência dos privilégios de classe
B- oferece um panorama da população do campo
C- mostra os benefícios da fartura na agricultura.
D- mostra os benefícios da fartura na agricultura
E- valoriza o trabalho ao longo das gerações.
QUESTÃO 05
(Enem 2025)
TEXTO I
Os trabalhos da exposição Adriana Varejão: suturas, fissuras, ruínas colocam em pauta o exame da história visual, das tradições iconográficas europeias e do fazer artístico ocidental. O corte, a rachadura, o talho e a fissura são elementos de narrativas recorrentes nos trabalhos da artista desde 1992. As produções recentes incluem pinturas tridimensionais de grande escala das séries Ruínas de charque e Línguas.
Disponível em: https://pinacoteca.org.br.
Acesso em: 10 jan. 2025 (adaptado).
TEXTO II

VAREJÃO, A. Azulejaria em carne viva. Óleo sobre tela, poliuretano, madeira e alumínio, 160 × 200 × 25 cm. 1999.
Disponível em: www.adrianavarejao.net. Acesso em: 10 jan. 2025.
A utilização de recursos visuais como suturas, cortes e ruínas por Adriana Varejão, na obra Azulejaria em carne viva, remete à(s)
A– sobreposição da cultura brasileira à arte portuguesa.
B– manutenção da representação realista na arte brasileira.
C– violências desencadeadas pelo processo colonial brasileiro.
D– desigualdades nos incentivos à produção artística brasileira.
E– negligência na conservação do patrimônio arquitetônico luso-brasileiro.
QUESTÃO 06
(Enem 2025)
O meu medo é entrar na faculdade e tirar zero eu que nunca fui bom de matemática fraco no inglês eu que nunca gostei de química geografia e português o que é que eu faço agora hein mãe não sei. […]
O meu medo é a vida piorar e eu não conseguir arranjar emprego nem de faxineiro nem de porteiro nem de ajudante de pedreiro e o pessoal dizer que o governo já fez o que pôde já pôde o que fez já deu a sua cota de participação hein mãe não sei.
O meu medo é que mesmo com diploma debaixo do braço andando por aí desiludido e desempregado o policial me olhe de cara feia e eu acabe fazendo uma burrice sei lá uma besteira será que eu vou ter direito a uma cela especial hein mãe não sei.
FREIRE, M. Contos negreiros. Rio de Janeiro: Record, 2005.
Nesse texto, a reiteração dos medos e das angústias do narrador exprime
A– inseguranças sobre o futuro familiar.
B– dilemas resultantes de seu fracasso escolar.
C– incertezas centradas em sua condição social.
D– hesitações em relação à sua formação profissional.
E– preocupações com as políticas públicas assistenciais.
QUESTÃO 07
(Enem 2025)
A característica fundamental no aprendizado das práticas rituais nos candomblés é o processo iniciático e participante. Durante o período de reclusão em terreiros ou rocas, o iniciado passa por uma série de ritos esotéricos (banhos rituais, raspagem da cabeça etc.), ao mesmo tempo em que começa a adquirir um complexo código de símbolos materiais (substâncias, folhas, frutos, raízes etc.) e de gestos associados a um repertório linguístico específico das cerimônias que se desenrolam nos contextos sagrados em geral e em cada terreiro em particular.
Esse repertório linguístico, genericamente chamado de “língua de santo” na Bahia, compreende uma terminologia religiosa operacional, de caráter mágico-semântico e de aparente forma portuguesa, mas que repousa sobre sistemas lexicais de diferentes línguas africanas que provavelmente foram faladas no Brasil escravocrata, vindo a constituir uma língua ritual, que se acredita pertencer à nação do vodum, do orixá ou do inquice, e não a determinada nação africana política atual.
Disponível em: https://periodicos.ufba.br. Acesso em: 21 jan. 2024 (adaptado).
A “língua de santo” tem sua importância para o patrimônio linguístico brasileiro por
A– apresentar uma carga semântica mítica.
B– conservar elementos dos falares dos escravizados.
C– resgatar expressões portuguesas do período colonial.
D– decodificar o ritual religioso dos nossos antepassados.
E– favorecer a compreensão do léxico africano contemporâneo.
QUESTÃO 08
(Enem 2025)
No predomínio das mulheres pretas brasileiras nos Jogos Olímpicos de 2024, uma coisa chamou a atenção no pódio: elas valorizam a parte psicológica. As duas medalhistas de ouro, a judoca Beatriz Souza e a ginasta Rebeca Andrade, ressaltam, em várias entrevistas, a importância da saúde mental. Em uma dessas entrevistas, Rebeca sinaliza: “Acho que não é só sobre vencer a Simone, é sobre vencer a mim mesma. A minha briga está na minha cabeça, não está com outras pessoas. Para conseguir fazer as minhas apresentações, preciso controlar a minha cabeça, o meu corpo, e essa é a briga”. Na mesma linha, a skatista Rayssa Leal exalta a necessidade da terapia, e a Seleção Brasileira de Futebol de Mulheres tem o suporte psicológico como reforço no treinamento.
Disponível em: https://iclnoticias.com.br. Acesso em: 18 set. 2024 (adaptado).
Nesse texto, as atletas brasileiras defendem o(a)
A– investimento na modernização de equipamentos.
B– subordinação do treinamento físico ao mental.
C– estímulo à competição entre adversárias.
D– aprimoramento da expressão corporal.
E– importância da saúde emocional.
QUESTÃO 09
(Enem 2025)
Antes do inverno chegar.
Ela tinha olhinhos brilhantes. Os mesmos de antes. Antes da fome. Antes das 17 mudanças de cidade. Dos sete filhos e dos muitos anos de trabalho dentro e fora de casa.
Ela fazia ambrosia, bolo de fubá e pedacinhos de queijo. Antes do inverno, ela plantava flores novas e diferentes para nos esperar nas próximas férias de verão.
Ela tinha o jeito de menina. Menina sapeca, correndo na grama seca do cerrado. O mesmo jeito de antes. Antes do marido (e mesmo com o marido). Antes do cansaço dos anos. Antes da dureza do trato com a terra.
Ela tinha histórias. Compridas, curtas, divertidas e verdadeiras. Mas isso foi antes. Antes das lembranças se bagunçarem feito bolas coloridas de Natal esperando para serem montadas na árvore.
Eu era sua neta. Antes do Alzheimer chegar, eu era sua neta. Mas ela é e sempre será minha avó.
PERSON, C. R. Borboletas no estômago: porque às vezes o título precisa
ser adolescente e clichê, já que a vida exige sermos tão adultos. São Paulo: Ed. das Autoras, 2021.
A narradora, ao resgatar memórias da história de vida da avó, faz uso recorrente da locução “antes de”. Esse termo colabora para a progressão temática na medida em que
A- relaciona eventos ocorridos simultaneamente.
B- estabelece uma comparação entre as lembranças.
C- ressalta fatos que ressignificam o momento presente.
D- sinaliza uma sequência que denota ações consecutivas.
E- apresenta uma explicação para as memórias resgatadas.
QUESTÃO 10
(Enem 2025)
Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.§ 1º O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil. 2º Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro–Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.
BRASIL. Lei n. 10 639/2003. Disponível em: www.gov.br/planalto.Acesso em: 5 maio 2024.
O emprego da norma-padrão é justificado nesse texto
A- pela especialização de seu público-alvo.
B – pela relevância cultural de seu conteúdo.
C- pelos contextos pedagógicos em que circula.
D – pela importância para os grupos étnico-raciais.
E- pelas características do gênero a que pertence.
Gabarito
- E
- A
- B
- A
- C
- C
- A
- E
- C
- E

