Lá Vem o Enem: teste seus conhecimentos sobre memória e história

Compartilhar:

Charles Darwin Foto: Domínio público

Professor explica como sociedades constroem memórias sobre o passado e dá dicas para identificar o tema em questões do Enem.

Você sabe qual é a diferença entre memória e história? Embora os dois conceitos estejam relacionados ao passado, eles não significam a mesma coisa. Entender essa distinção é importante para resolver questões de Ciências Humanas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Em mais uma videoaula do Lá Vem o Enem, o professor de História Rafael explica como as sociedades produzem memórias e de que forma pinturas, monumentos, museus e espaços públicos podem contribuir para construir determinadas visões sobre acontecimentos históricos.

A memória pode aparecer por meio de imagens, lembranças e fragmentos relacionados ao passado. Já a História busca investigar e explicar os acontecimentos utilizando fontes e métodos de análise.

Como as sociedades constroem memórias?

Durante a aula, Rafael destaca que as representações do passado são produzidas em determinados contextos e podem estar relacionadas aos interesses de uma sociedade em cada período.

Um dos exemplos é a Independência do Brasil. A conhecida imagem de Dom Pedro I erguendo a espada às margens do Ipiranga ajudou a construir uma representação do episódio centrada na figura do imperador. Historicamente, porém, a Independência foi resultado de um processo mais complexo, que envolveu diferentes conflitos e transformações políticas.

“É para produzir uma memória sobre o passado, para ter objetivos no presente e gerar imagens cristalizadas para o futuro”, afirma o professor.

Praças e monumentos também podem revelar esse processo. Rafael cita a Praça XV, no Rio de Janeiro, cujo nome remete à Proclamação da República, como exemplo de como mudanças políticas podem transformar os símbolos utilizados para recordar o passado.

No Enem, questões sobre o tema podem exigir que o candidato identifique os interesses envolvidos na construção de uma memória e analise o contexto em que determinada representação foi criada.

“Esses espaços de memória não são desinteressados, eles têm objetivos e você tem que saber analisar”, orienta Rafael.

Entendeu o conteúdo? Agora é hora de colocar os conhecimentos em prática e resolver questões sobre memória, História e representações do passado.

1. (Enem) No primeiro dia, foi colocada uma panela de barro no centro do barracão, a qual representava o espírito do morto presente na sala. Aqueles que dançavam depositavam moedas ao passarem junto dela e, ao seu redor, milho branco, mel, água, acaçás, cachaça. No segundo dia, os ogãs, antes de iniciar a cerimônia, caminharam pelo corredor formado pelas casas, batendo com longas varas de bambus nos seus beirais, até alcançarem o portão de entrada. No terceiro dia, quatro pessoas, as mais influentes do culto, carregaram um lençol, que aparentemente continha um corpo em seu interior. No entanto, esse corpo era formado por folhas verdes de plantas, que foram derramadas sobre uma pessoa.

MANZOCHI, H. M. Axexe, um rito de passagem. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, n. 5, 1995 (adaptado).

O ritual brasileiro apresentado no texto representa, para seus adeptos, a    

a)  manutenção de uma memória coletiva. 

b)  contestação de uma identidade étnica. 

c)  imolação de uma divindade africana. 

d)  legitimação de uma prática pagã. 

e)  promissão de uma revolta social. 

2. (Enem)  I – Para consolidar-se como governo, a República precisava eliminar as arestas, conciliar-se com o passado monarquista, incorporar distintas vertentes do republicanismo. Tiradentes não deveria ser visto como herói republicano radical, mas sim como herói cívico religioso, como mártir, integrador, portador da imagem do povo inteiro.

CARVALHO, J. M. C. A formação das almas: O imaginário da Republica no Brasil.

São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

I – Ei-lo, o gigante da praça, / O Cristo da multidão!

É Tiradentes quem passa / Deixem passar o Titão.

ALVES, C. Gonzaga ou a revolução de Minas. In:

CARVALHO. J. M. C. A formação das almas: O imaginário da Republica no Brasil. São Paulo: Companhiadas Letras, 1990.

A 1ª República brasileira, nos seus primórdios, precisava constituir uma figura heroica capaz de congregar diferenças e sustentar simbolicamente o novo regime.

Optando pela figura de Tiradentes, deixou de lado figuras como Frei Caneca ou Bento Gonçalves. A transformação do inconfidente em herói nacional evidencia que o esforço de construção de um simbolismo por parte da República estava relacionado

a)   ao caráter nacionalista e republicano da Inconfidência, evidenciado nas ideias e na atuação de Tiradentes.

b)   à identificação da Conjuração Mineira como o movimento precursor do positivismo brasileiro.

c)   ao fato de a proclamação da República ter sido um movimento de poucas raízes populares, que precisava de legitimação.

d)   à semelhança física entre Tiradentes e Jesus, que proporcionaria, a um povo católico como o brasileiro, uma fácil identificação.

e)   ao fato de Frei Caneca e Bento Gonçalves terem liderado movimentos separatistas no Nordeste e no Sul do país.

3. (Enem)  É difícil encontrar um texto sobre a Proclamação da República no Brasil que não cite a afirmação de Aristides Lobo, no Diário Popular de São Paulo, de que “o povo assistiu àquilo bestializado”. Essa versão foi relida pelos enaltecedores da Revolução de 1930, que não descuidaram da forma republicana, mas realçaram a exclusão social, o militarismo e o estrangeirismo da fórmula implantada em 1889. Isto porque o Brasil brasileiro teria nascido em 1930.

MELLO, M. T. C. A república consentida: cultura democrática e científica no final do Império. Rio de Janeiro: FGV, 2007 (adaptado).

O texto defende que a consolidação de uma determinada memória sobre a Proclamação da República no Brasil teve, na Revolução de 1930, um de seus momentos mais importantes. Os defensores da Revolução de 1930 procuraram construir uma visão negativa para os eventos de 1889, porque esta era uma maneira de

a)   valorizar as propostas políticas democráticas e liberais vitoriosas.

b)   resgatar simbolicamente as figuras políticas ligadas à Monarquia.

c)   criticar a política educacional adotada durante a República Velha.

d)   legitimar a ordem política inaugurada com a chegada desse grupo ao poder.

e)   destacar a ampla participação popular obtida no processo da Proclamação.

4. (Enem)  A primeira imagem a seguir (publicada no século XVI) mostra um ritual antropofágico dos índios do Brasil. A segunda mostra Tiradentes esquartejado por ordem dos representantes da Coroa portuguesa.

A comparação entre as reproduções possibilita as seguintes afirmações:

I. Os artistas registraram a antropofagia e o esquartejamento praticados no Brasil.

II. A antropofagia era parte do universo cultural indígena e o esquartejamento era uma forma de se fazer justiça entre luso-brasileiros.

III. A comparação das imagens faz ver como é relativa a diferença entre “bárbaros” e “civilizados”, indígenas e europeus.

Está correto o que se afirma em:

a)   I apenas.

b)   II apenas.

c)   III apenas.

d)   I e II apenas.

e)   I, II e III.

5. (Enem) As instituições que a Idade Média nos legou são de um valor maior e mais imperecível do que suas catedrais. E a universidade é nitidamente uma instituição medieval – tanto quanto a monarquia constitucional, ou os parlamentos, ou o julgamento por meio do júri. As universidades e os produtos imediatos das suas atividades constituem a grande realização da Idade Média na esfera intelectual.

RASHDALL, H. apud OLIVEIRA, T. Origem e memória das universidades medievais. Varia História, n. 37, jan.-jun. 2007.

De acordo com o texto, o legado das universidades medievais torna-se um relevante patrimônio histórico-cultural por 

a)  adotar currículo e método padronizado. 

b)  rejeitar ideologias e costumes orientais. 

c)  possuir organização e função mercantil. 

d)  transmitir técnicas e valores ecumênicos. 

e)  agregar tradição e conhecimento científico. 

6. (Enem)  A história do Primeiro de Maio de 1890 — na França e na Europa, o primeiro de todos os Primeiros de Maio – é, sob vários aspectos, exemplar. Resultante de um ato político deliberado, essa manifestação ilustra o lado voluntário da construção de uma classe — a classe operária — à qual os socialistas tentam dar uma unidade política e cultural através daquela pedagogia da festa cujo princípio, eficácia e limites há muito tempo tinham sido experimentados pela Revolução Francesa.

PERROT, M. Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

Com base no texto, a fixação dessa data comemorativa tinha por objetivo

a)   valorizar um sentimento burguês.

b)   afirmar uma identidade coletiva.

c)   edificar uma memória nacional.

d)   criar uma comunidade cívica.

e)   definir uma tradição popular.

7. (Enem) 

Produzida no Chile, no final da década de 1970, a imagem expressa um conflito entre culturas e sua presença em museus decorrente da

a)   valorização do mercado das obras de arte. 

b)   definição dos critérios de criação de acervos. 

c)   ampliação da rede de instituições de memória. 

d)   burocratização do acesso dos espaços expositivos. 

e)   fragmentação dos territórios das comunidades representadas. 

8. (Enem 2ª aplicação)  A história não corresponde exatamente ao que foi realmente conservado na memória popular, mas àquilo que foi selecionado, escrito, descrito, popularizado e institucionalizado por quem estava encarregado de fazê-lo. Os historiadores, sejam quais forem seus objetivos, estão envolvidos nesse processo, uma vez que eles contribuem, conscientemente ou não, para a criação, demolição e reestruturação de imagens do passado que pertencem não só ao mundo da investigação especializada, mas também à esfera pública na qual o homem atua como ser político.

HOBSBAWN, E.; RANGER, T. A Invenção das tradições. 

Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984 (adaptado).

Uma vez que a neutralidade é inalcançável na atividade mencionada, é tarefa do profissional envolvido

a)   criticar as ideias dominantes.

b)   respeitar os interesses sociais.

c)   defender os direitos das minorias.

d)   explicitar as escolhas realizadas.

e)   satisfazer os financiadores de pesquisas.

9. (Enem) TEXTO I

Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo. Vencido palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.

CUNHA, E. Os sertões. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987.

TEXTO II

Na trincheira, no centro do reduto, permaneciam quatro fanáticos sobreviventes do extermínio. Era um velho, coxo por ferimento e usando uniforme da Guarda Católica, um rapaz de 16 a 18 anos, um preto alto e magro, e um caboclo. Ao serem intimados para deporem as armas, investiram com enorme fúria. Assim estava terminada e de maneira tão trágica a sanguinosa guerra, que o banditismo e o fanatismo traziam acesa por longos meses, naquele recanto do território nacional.

SOARES, H. M. A Guerra de Canudos. Rio de Janeiro: Altina, 1902.

Os relatos do último ato da Guerra de Canudos fazem uso de representações que se perpetuariam na memória construída sobre o conflito. Nesse sentido, cada autor caracterizou a atitude dos sertanejos, respectivamente, como fruto da

a)   manipulação e incompetência.

b)   ignorância e solidariedade.

c)   hesitação e obstinação.

d)   esperança e valentia.

e)   bravura e loucura.

10. (Enem)  Iniciou-se em 1903 a introdução de obras de arte com representações de bandeirantes no acervo do Museu Paulista, mediante a aquisição de uma tela que homenageava o sertanista que comandara a destruição do Quilombo de Palmares. Essa aquisição, viabilizada por verba estadual, foi simultânea à emergência de uma interpretação histórica que apontava o fenômeno do sertanismo paulista como o elo decisivo entre a trajetória territorial do Brasil e de São Paulo, concepção essa que se consolidaria entre os historiadores ligados ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo ao longo das três primeiras décadas do século XX.

MARINS, P. c. G. Nas matas com pose de reis: a representação de bandeirantes e a tradição da retratística monárquica europeia. Revista do LEB, n. 44, tev. 2007.

A prática governamental descrita no texto, com a escolha dos temas das obras, tinha como propósito a construção de uma memória que

a)   afirmava a centralidade de um estado na política do país.

b)   resgatava a importância da resistência escrava na história brasileira.

c)   evidenciava a importância da produção artística no contexto regional.

d)   valorizava a saga histórica do povo na afirmação de uma memória social.

e)   destacava a presença do indígena no desbravamento do território colonial.

Gabarito

Resposta da questão 1:

[A]

[Resposta do ponto de vista da disciplina de História]

O axexe, no candomblé, é um rito fúnebre realizado quando uma pessoa importante na hierarquia religiosa morre. Sua prática é característica da identidade afrodescendente no Brasil, constituindo uma manutenção de memória coletiva negra.

[Resposta do ponto de vista da disciplina de Sociologia]

A alternativa [A] está correta. Esse ritual brasileiro exemplifica a manutenção da memória coletiva ao perpetuar tradições, símbolos e significados que conectam as pessoas a uma herança cultural e espiritual comum. A prática envolve elementos simbólicos, como a panela de barro representando o espírito do falecido, e gestos ritualísticos que recriam a presença simbólica do antepassado, ajudando os participantes a relembrar, honrar e dar continuidade ao legado e aos valores transmitidos por ele. Assim, tais práticas e símbolos são transmitidos entre gerações, permitindo que o grupo se conecte com sua história e identidade cultural de maneira viva.

Resposta da questão 2:

[C]

É muito comum que aqueles que chegam ao poder busquem a figura de um herói, que de alguma forma simbolize o novo poder e possa congregar a maior parte da sociedade. Nesse sentido percebemos a escolha de Tiradentes como herói republicano. Um herói que não pegou em armas – diferentemente de Frei Caneca e Bento Gonçalves – e que pode ser associado a uma maior dimensão e não apenas a uma região.

Resposta da questão 3:

[D]

Segundo o texto, aqueles que chegaram ao poder em 1930 valorizavam a República, porém criticavam suas características políticas e isso pode ser entendido na medida em que o novo grupo que chegou ao poder, o fez exatamente eliminando o grupo de proclamou a República e instituiu um modelo baseado no coronelismo e no voto de cabresto.

Resposta da questão 4:

[E]

Para os indígenas antropofágicos comer o inimigo capturado e apropriar-se de seus dotes era um ritual de guerra. Para os portugueses, o enforcamento era parte da lei para fazer justiça aos criminosos, assim, o esquartejamento, mesmo após a morte, representava um agravamento, pois para os católicos, significava a ameaça de não ressurreição do corpo. 

Resposta da questão 5:

[E]

O excerto destaca o surgimento e o desenvolvimento das Universidades no período medieval, pontuando que havia, nessas instituições, uma junção entre elementos tradicionais do período e avanços do conhecimento e da Ciência, o que podemos de fato atestar a partir de inúmeros exemplos, como o desenvolvimento da Escolástica.

Resposta da questão 6:

[B]

Inserida no contexto da Segunda Revolução Industrial, a criação do 1º de Maio como Dia do Trabalhador está diretamente relacionada às influências marxistas sobre os movimentos operários em fins do século XIX. A criação buscava dar simbologia e legitimação à luta coletiva dos trabalhadores em busca dos seus direitos, tanto na Europa quanto nos EUA.

Resposta da questão 7:

[B]

[Resposta do ponto de vista da disciplina de Sociologia]

Muitos museus se utilizam de critérios etnocêntricos para constituírem seus acervos ao enquadrarem determinadas culturas como sendo primitivas ou exóticas. É nesse debate acerca dos critérios de criação de acervos que a imagem se insere.

[Resposta do ponto de vista da disciplina de História]

A imagem questiona os critérios de escolha dos acervos dos Museus. Nesse sentido, questiona a utilização da cultura e da arte, como um todo, como forma de legitimação das desigualdades sociais, uma vez que os acervos dos Museus são, em geral, etnocêntricos e ortodoxos.

Resposta da questão 8:

[D]

O processo de produção histórica é pessoal: cada historiador, ao analisar uma fonte, faz a ela as “perguntas” que acha conveniente para o objeto da sua pesquisa. Nesse sentido, cabe ao historiador deixar claro qual a intenção e o objetivo de suas escolhas de pesquisa.

Resposta da questão 9:

[E]

[Resposta do ponto de vista da disciplina de História]

No primeiro texto, na afirmação “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo” podemos notar uma conotação de bravura em referência aos sertanejos. Já no segundo texto, na afirmação “que o banditismo e o fanatismo traziam acesa por longos meses” podemos notar uma conotação de loucura em referência aos sertanejos.

[Resposta do ponto de vista da disciplina de Português]

O texto I, excerto da terceira parte da obra “Os sertões”, de Euclides da Cunha, descreve a luta dos sertanejos que, destemidamente enfrentam a morte, não se rendem e são exterminados de forma sumária. O texto II, de Henrique Macedo Soares, militar na última expedição contra Canudos, descreve o grupo como um bando de fanáticos liderado pelo peregrino Antônio Conselheiro, acreditando que ele poderia libertá-los da situação de extrema pobreza ou garantir-lhes a salvação eterna na outra vida. Assim, cada autor caracterizou a atitude dos sertanejos, respectivamente, como fruto da bravura e loucura, como se afirma em [E].

Resposta da questão 10:

[A]

Na chamada República Oligárquica, o estado de São Paulo buscava ocupar um lugar de hegemonia na política nacional, uma vez que já comandava a economia brasileira devido ao ciclo do café. Assim, o uso da figura do bandeirante nas obras de arte foi uma forma de legitimar essa hegemonia.

Postagens relacionadas

plugins premium WordPress